h1

Finalmente, Havana.

Janeiro 16, 2008

Não que eu conheça um monte de lugares no mundo, mas com certeza posso afirmar que Havana é um lugar único.

Antes de entrar na parte final desta aventura, um pequeno parêntese. Muitas pessoas me perguntaram: por que Cuba? A pergunta é engraçada, pois nunca vi ninguém perguntando a outras pessoas quando viajam algo como “por que a Disney?”, ou “por que Paris?”. Enfim… Eu sou daquele tipo de gente que sempre pensa nas coisas que o dinheiro não pode comprar. E voltar ao passado é uma delas (por enquanto). É do conhecimento de todos que o líder máximo cubano, Fidel Castro, está com seus 81 anos e, para ficar no populacho, um pé no caixão e outro na casca da banana. A previsão é de que após a sua morte, mesmo com seu irmão Raul Castro assumindo as funções, as coisas mudem bastante por lá. Resumindo: Havana nunca mais vai ser a mesma sem Fidel Castro. Apesar de tudo o que ele fez pelo país nos primeiros anos de revolução, hoje seu sistema está atrasado. Pouco flexível, para ser mais exato. Digo isso com toda certeza, eu vi com meus próprios olhos. Um exemplo prático é Manuel, o jardineiro de um hotel em que estive hospedado. Em 10 minutos ele transforma uma folha de palmeira em um sombreiro, usando apenas uma amarra inicial. Todos os hóspedes usam os chapéus do Manuel. Todos sabem que ele faz o chapéu. Todos sabem que ele cobra 5 pesos (6 dólares) por um chapéu. Entretanto, o homem faz tudo isso na “ilegalidade”, já que a ele não é permitido este tipo de coisa. Não é possível um pouco de flexibilidade, centralizando no governo as companhias grandes e deixando um pequeno comerciante como ele exercer uma atividade em que seja seu próprio patrão? Foi isso que eu quis dizer com Fidel ser um pouco atrasado.

Bom, o parêntese já ficou grande demais e este não é um blog sobre política, mas fica impossível falar de Cuba sem tocar no assunto. A questão é que daqui a alguns anos acredito que nenhum dinheiro no mundo poderá comprar uma passagem para a Havana de hoje. E ela é linda. E foi por isso que eu quis conhecê-la.

havana.jpg

O vôo de Cayo Largo a Havana foi feito em um avião sinistro. Não existe outra palavra para descrever aquela velha aeronave sem janelas, na qual entra-se por trás, com botões escritos em russo por todos os lados.

Após o pouso, mais emocionante que qualquer montanha-russa em que já estive, fui recepcionado por Felix Arguelles, o motorista do taxi. O currículo básico deste simpático senhor pode ser visto neste site. Só para resumir, o taxista Felix fala umas 8 línguas, é formado em História, Ciências Sociais e Economia, já foi diplomata e general do exército e até motorista de ônibus. Sugiro a visita ao site dele, é impressionante. Até porque gostaria de poder falar dele um pouquinho.

No trajeto para o hotel, o senhor Felix me deu dicas importantes de segurança em Havana. Sim, é um lugar perigoso. Existe assalto pra cacete, prostituição a rodo e malandragem por todo lado. Não importa o que você já viu ou leu sobre Cuba, a verdade é que vendem droga na rua como em qualquer país e, se você não mantiver os olhos bem abertos, roda como em qualquer país também.

noite.jpg

Como cheguei em Havana na noite de Natal e estava com fome, convidei o Felix para jantar comigo. Ele ficou muito agradecido. Em Havana, ao contrário do Brasil, ainda valoriza-se muito um convite para jantar. As coisas são muito difíceis. Como não há fartura e muito menos sobras, foi bonito ver como ele ficou lisonjeado. Mais do que a maioria das mulheres que conheço, por exemplo, que tratam este tipo de coisa como uma simples obrigação que deve partir de um pretendente. Talvez a falta de consumo capitalista em Cuba justifique o fato das pessoas serem mais vedadeiras. Elas ainda vivem na era do ser, ao invés do ter. E isso foi uma das coisas mais bonitas que eu vi por lá. Pena que é impossível de fotografar.

Continuando, o fato é que fomos a um restaurante simples chamado El Baturro, onde pude comer a melhor refeição de toda a viagem - arroz, feijão preto, salada com vinagre e azeite (raro…), espetinho de camarão e legumes refogados. Conversamos muito e aos poucos eu ganhava mais um amigo. Dali seguimos para um bar clássico, La Bodeguita del Medio. O local é famoso por seus mojitos, e principalmente por seu mais ilustre apreciador - Ernest Hemingway. O escritor americano, que viveu quanse 30 anos por lá, é cultuado em todo o país. O principal motivo disto foi sua ajuda a Cuba, principalmente financeira, para que as forças revolucionárias pudessem ter armamentos capazes de enfrentar os norte-americanos. Após alguns mojitos demos um pulo no Floridita. Conhecido como a casa do daiquiri, é outro local que foi muito freqüentado pelo autor de O velho e o mar. Existe inclusive uma estátua em tamanho real do homem, encostado no balcão. Nosso passeio de Natal acabou com um brinde a esta nova amizade no La Torre, um dos restaurantes mais altos de Havana. De lá é possível admirar grande parte desta cidade tão diferente, que durante a noite brilha como tantas outras espalhadas pelo mundo.

Gostei tanto do tio Felix (que a estas alturas já me chamava de sobriño) que no dia seguinte agendei com ele um city tour particular, com o taxi. Afinal, era meu único dia por lá e não estava disposto a circular em um ônibus cheio de turistas que descem nos locais, batem fotos e vão para outro ponto fazer a mesma coisa. Queria ser dono do meu próprio passeio, circular, parar para tomar cerveja, curtir o lugar de verdade. E foi o que aconteceu.

O grande destaque, é claro, fica no bairro de Havana Vieja. Tombado patrimônio da humanidade, o local conserva todo o clima e arquitetura que tinha em 1960, com seus prédios antigos, ruas pobres e carrões americanos antigos. Uma avenida de 6,5 km liga Havana Moderna a Havana Vieja - o Malecón. O Malecón é como um calçadão de Ipanema, com a diferença de que não há praia. As ondas batem direto no muro e a água voa nas pessoas, nos carros, em tudo. O lugar é cheio de pedras e, por isso, fiquei fora de controle quando vi que alguns caras surfavam ali. Esse, pra mim, foi um daqueles momentos marcantes da vida, em que pude sentir o espírito verdadeiro do que é o surfe. Ondas de merda, cheio de pedras, proibido por lei… E eles estavam lá.

malecon.jpg

Este post está ficando meio grande… Para finalizar, posso dizer que foram muitos lugares e experências que pude conhecer em Cuba, e que ficarão para sempre guardados na minha memória. Todo surfista é um viajante por natureza. As ondas são apenas parte do surfe. A parte essencial, a pedra fundamental. Mas somente ondas não fazem dele tudo o que ele representa. A busca por lugares novos, culturas diferentes, amizades, sorrisos e sensações, a camaradagem entre os amigos, a eterna insatisfação. Tudo isso é parte dessa religião que praticamos, e que depois dessa viagem tornou-se ainda mais rica para mim.

No próximo post, um resumo com dicas e lugares a conhecer em Cuba. Coloquei mais algumas fotos no Flickr, para ver clique aqui. 

Deixe seu comentário